sábado, 19 de março de 2011

Manhã orvalhada


Por mais nada fazer sentido
Eu caminhava a esmo, a beira do despenhadeiro parei,
Cruzei os braços e fiquei a observar o vôo de um Condor sobre o mar.
O vento sacolejava minhas vestes amplas e alvas.
Vez ou outra vindo em minha direção o livre Condor parecia me convidar em sua companhia voar.
Se não fosse pelo real harpejar, pensaria eu que a voz que sussurrou em meu ouvido fosse fruto do meu imaginar: — Não podes voar!
Aquilo fez mais aguçar. Fechei os olhos larguei o corpo,
Velozmente caindo lancei um grito.
Ao abrir os olhos vi que o Condor acompanhava minha queda
Parecendo tentar a me ensinar a voar.
Seu crucitar soava como uma bela canção.
Abri os braços, então pude plainar ao lado do mais belo
E afinado Condor.
Alçamos vôo.
Pude rodopiar sorrir, sonhar...
Desejei que ele me levasse para onde bem quisesse,
Ele parecia estar me conduzindo!
O gozo harmônico de nosso vôo culminou
E a chuva nos alcançou, aderindo minhas vestes,
Deixando minhas imperfeições expostas, e mesmo assim o Condor permanecia ao meu lado, parecendo ser pleno, estar certo de qual rumo seguir hipnotizado pela luz do sol que distante surgia.
Encantada com o garboso plainar dele, não atinei que ele somente estava voltando para o seu ninho.
Rapidamente, fazendo gracejos até para as gaivotas ele tomou outro rumo deixando me seguir sem amparo.
A voz tornou a sussurrar: — já é hora de pousar.
Mesmo lamentando obedeço,
Desejando aterrissar onde eu pudesse receber toda a energia emanada da Terra.
Desci lentamente, sentindo a brisa mansa a me acariciar
Tal qual beijo de mãe, refrescante como perdoar,
Meus pés finalmente tocam a grama macia.
Sinto que neste lugar eu posso plantar boas sementes.
Imagino o florear de Gérberas e Narcisos num perfeito contrastar.
Repouso a sombra do Flamboyant, sem lamentar, apenas atento
Para os movimentos ligeiros da Curruíra.
Já não sinto sofrer, nem revolta, apenas suspiro profundamente
Ao fitar o horizonte imaginando cada vez mais o floreio,
Não mais permitindo que o que feneceu obscureça minh’alma.
Na manhã orvalhada caminho em paz, deixando o lamento
Por conta do canto das Seriemas e Sábias Laranjeiras.


quinta-feira, 17 de março de 2011

Bucólica Morada


Bucólica Morada

A chuva fina que cai me faz lembrar a fria manhã do mês de junho, enquanto eu observava a serra que mais parecia uma noiva coberta por um delicado véu.
Eu queria deixar de olhar, mas era como se meus olhos estivessem entorpecidos ao admirar a formosura daquele lugar. Na hora apenas abracei quem eu amava ao perceber suas lagrimas silenciosas.
Hoje o teu silencio para mim se tornou canção, talvez eu esteja ouvindo a toada que estava no seu coração, e naquele momento eu não soube cantar.
Cá donde estou, envolvida no manto que não tem o mesmo aconchego do teu abraço posso observar um pedaço daquela serra e fico a imaginar: O véu branco baixou, ou a magia dela a ergueu até as nuvens? Parece que ouço sons de lamentos vindos de lá. Será uma viola que chora, ou será ele ainda a cantar?
Creio que por aquelas estradas não mais voltarei a passar, nem a olhar para o vale de montanhas onde alguém edificou a bucólica morada, donde imagino viver uma família tal qual eu sonhara na minha juventude.
Todos os dias eu acredito viver o auge da dor, no dia seguinte ela é maior.
Somos mesclados, eu você e a serra, acredito que a tristeza que sinto, parte venha dela e outra de você, então nada do que sinto, sinto só.
Talvez o lamento que ouço seja somente os ecos dos meus choros, e porque não também dos seus? O que será que brotou onde teu pranto tocou?
Não posso ouvir o ponteio de uma viola ou o choro de uma sanfona que me ponho a “viajar”, seja dia seja noite por aquelas terras em meus pensamentos eu posso morar. Sonhe também e me encontre lá. Fique na rede, te levo água fresca para matar a tua sede, vinho para te alegrar, toque a viola pra mim e cante aquela canção que está no teu sonhar, antes me acolha no teu abraço, para me libertar do cansaço..., da dor.
La em meus sonhos você é livre feito uma andorinha, e eu posso te prometer nunca mais te perder, posso fazer com que você nunca mais pense em me deixar.
Para sempre lá viveremos, a terra será nossa melhor amiga, nos dará sempre boas colheitas, e quando for à hora ela acolhera nossos corpos velhos e cansados, nossas almas lá continuarão juntas por toda a eternidade. Quem quer que passe por lá nunca haverá de não notar a formosura do nosso pomar, nem deixará de ouvir você a dedilhar, e tentando ser afinada, baixinho eu a cantar: “Moro num lugar numa casinha inocente do sertão de fogo baixo aceso no fogão, fogão a lenha ai, ai... Que vida boa...”

Por Fran


David

Original: Aubrey -  Bread

David

E David era seu nome,
Não era nem um garoto, talvez o nome dele seja comum
Mas a quem culpar?
Por um amor que não floresceria
Por corações qu
e nunca estiveram em sintonia
Assim como uma melodia que todos conseguem cantar
Se retirarmos as palavras que rimam não há mais significado.

E David era seu nome,
Nós diminuímos a luz e dançamos ao luar
Mas onde estava Junho?
Ele nunca chegou
E se chegou, veio em silêncio
Talvez eu estivesse ausente ou ansiosa demais para ouvi-lo
Agarrando às palavras e deixando passar o que elas significavam.

Mas Deus, eu sinto falta dele
Eu viraria o mundo mil vezes só para estar
Mais perto dele do que de mim mesma

E David era seu nome,
Eu não o conhecia, mas eu o amava mesmo assim,
Eu amava o seu nome.
Eu queria ter encontrado a maneira
E as razões que o fizessem ficar
Eu aprendi a conduzir a minha vida distante dos outros
Se eu não posso ter quem eu quero, ficarei sem os outros

Mas como eu sinto falta dele
Eu viraria o mundo um milhão de vezes apenas para dizer
Que ele foi meu por um dia.