Por mais nada fazer sentido
Eu caminhava a esmo, a beira do despenhadeiro parei,
Cruzei os braços e fiquei a observar o vôo de um Condor sobre o mar.
O vento sacolejava minhas vestes amplas e alvas.
Vez ou outra vindo em minha direção o livre Condor parecia me convidar em sua companhia voar.
Se não fosse pelo real harpejar, pensaria eu que a voz que sussurrou em meu ouvido fosse fruto do meu imaginar: — Não podes voar!
Aquilo fez mais aguçar. Fechei os olhos larguei o corpo,
Velozmente caindo lancei um grito.
Ao abrir os olhos vi que o Condor acompanhava minha queda
Parecendo tentar a me ensinar a voar.
Seu crucitar soava como uma bela canção.
Abri os braços, então pude plainar ao lado do mais belo
E afinado Condor.
Alçamos vôo.
Pude rodopiar sorrir, sonhar...
Desejei que ele me levasse para onde bem quisesse,
Ele parecia estar me conduzindo!
O gozo harmônico de nosso vôo culminou
E a chuva nos alcançou, aderindo minhas vestes,
Deixando minhas imperfeições expostas, e mesmo assim o Condor permanecia ao meu lado, parecendo ser pleno, estar certo de qual rumo seguir hipnotizado pela luz do sol que distante surgia.
Encantada com o garboso plainar dele, não atinei que ele somente estava voltando para o seu ninho.
Rapidamente, fazendo gracejos até para as gaivotas ele tomou outro rumo deixando me seguir sem amparo.
A voz tornou a sussurrar: — já é hora de pousar.
Mesmo lamentando obedeço,
Desejando aterrissar onde eu pudesse receber toda a energia emanada da Terra.
Desci lentamente, sentindo a brisa mansa a me acariciar
Tal qual beijo de mãe, refrescante como perdoar,
Meus pés finalmente tocam a grama macia.
Sinto que neste lugar eu posso plantar boas sementes.
Imagino o florear de Gérberas e Narcisos num perfeito contrastar.
Repouso a sombra do Flamboyant, sem lamentar, apenas atento
Para os movimentos ligeiros da Curruíra.
Já não sinto sofrer, nem revolta, apenas suspiro profundamente
Ao fitar o horizonte imaginando cada vez mais o floreio,
Não mais permitindo que o que feneceu obscureça minh’alma.
Na manhã orvalhada caminho em paz, deixando o lamento
Por conta do canto das Seriemas e Sábias Laranjeiras.